11/10/16

O RECIFE DOS MEUS OLHOS - Samuel Dantas Nascimento

Recife é uma cidade que vem em dobro. Tão ruim quanto boa, tão feia como linda, tão pequena e tão grande. Diariamente, é difícil observar toda essa dualidade, mas ela sempre está presente nas entrelinhas de tudo que compõe este complicado aglomerado de pessoas chamado Recife.

Um dos melhores lugares para se ficar nessa capital é o famoso Recife Antigo. Sendo um grande apreciador do local, posso dizer que os defeitos e as qualidades se equilibram perfeitamente. Acho incrível como os monumentos históricos e cheiro insuportável de urina combinam perfeitamente com o clima do ambiente.

Até os seus habitantes servem como reflexo dessa bivalência regional. Quando aparecem, na TV ou em manifestações, sempre falam como eles valorizam a cidade e querem preserva-la, mas observando na rua todo o lixo e a depravação de monumentos culturais, a indecisão do povo fica ainda mais evidente. Afinal, a culpa de todas essas dificuldades é realmente só do governo?

A dúvida da população acaba sendo a mais prejudicial, pois ela traz consigo um tom de desonestidade e má vontade, já que ela demonstra quão longe a população Recifense consegue ir pela sua cidade e que apesar de todos dizerem que tem orgulho de sua nação, poucos agem assim como dizem.
 
Então, apesar dessa bipolaridade, esta cidade continua sendo um grandiosíssimo patrimônio cultural e sua preservação é algo indispensável. E para a esperança de um melhor futuro, eu digo que a imagem da capital é refletida pelo rio que a atravessa, a nossa imagem está marrom e turva.

Samuel Dantas Nascimento
 
E eu comecei esse blog por causa da chegada dele em nossas vidas...

16/04/16

INDIRETAS JÁ


Domingo tem eleição? Tem sim, Senhor. É isso mesmo. A pergunta que corre o Brasil, noves fora a hipocrisia, é de quantos votos Temer precisa para ser eleito presidente no domingo.

Nesta eleição, o PMDB tem candidato único, a ser sufragado pelo Colegiado Eleitoral. Voltaram as eleições indiretas no Brasil. Faz tempo já que não víamos uma, a última foi em 1985, Tancredo Neves x Maluf, quando 686 pessoas decidiram o pleito. No primeiro turno da eleição de 2016, neste domingo, 513 membros do Colégio Eleitoral terão o privilégio de decidir no lugar de 200 milhões de brasileiros e de 143 milhões de eleitores. Antes, terão o privilégio de invalidar o voto direto dado pela maioria dos 105 milhões que livremente escolheram ir às urnas.

Bem, infelizmente, sou de uma geração que não pode fingir que eleições indiretas sejam uma novidade. Em 1964 • 1966 • 1969 • 1974 • 1978, além de 1985, o nosso direito de escolher o presidente foi usurpado, como agora, por alguns poucos privilegiados. 361 elegeram Castelo Branco, 294 escolheram Costa e Silva, Médici foi o preferido de 293, Geisel foi feito presidente por 400, 355 elegeram Figueiredo, 480 foi bastante para Tancredo Neves. Michel Temer pode ser eleito neste domingo por apenas 342 votos, menos que Geisel e Figueiredo.

Reza a lenda que o fim do ciclo das eleições feitas por Colégios Eleitorais formados por representantes eleitos foi resultado de um grande movimento cívico chamado "Diretas Já", que virou o Brasil entre 1983 e 1984. Não foi sem luta nem sacrifício que tomamos de volta do Congresso o nosso direito de escolher diretamente o presidente da República. Por sua vez, 2015-2016 será lembrado como aquele momento em que o povo foi às ruas, com o apoio do sistema político, de organizações da sociedade civil e de grande parte do jornalismo para reivindicar "Indiretas Já". Neste domingo daremos um grande passo nesta direção ao conceder, de novo, ao Congresso o direito de funcionar como Colégio Eleitoral. Uma parte da sociedade, em conluio com o Congresso, que é o maior beneficiário desta decisão, exigiu e pretende obter a anulação da decisão tomada por maioria eleitoral em 2014. É simples assim.

Não, não é por crime de responsabilidade. Ninguém mais se lembra disso. Como em qualquer eleição, faz tempo que estamos apenas de olho nas pesquisas e contando os votos. Domingo é dia de eleição, sim Senhor. Candidato único (como Costa e Silva em 1966 e Médici em 1969) Michel Temer precisará de apenas 342 votos para começar a ser eleito o 41º presidente do Brasil. Parabéns aos envolvidos. A democracia volte vinte casinhas e fique uma vez sem jogar.

O governo Temer não existirá


A partir de segunda-feira (18), o Brasil não terá mais governo. Na democracia, o que diferencia um governo do mero exercício da força é o respeito a uma espécie de pacto tácito no qual setores antagônicos da população aceitam encaminhar seus antagonismos e dissensos para uma esfera política. Esta esfera política compromete todos, entre outras coisas, a aceitar o fato mínimo de que governos eleitos em eleições livres não serão derrubados por nada parecido a golpes de Estado.

É claro que há vários que dirão que o impeachment atual não é golpe, já que é saída constitucional. Nada mais previsível que golpe não ser chamado de golpe em um país no qual ditadura não é chamada de ditadura e violência não é chamada de violência. No entanto, um impeachment sem crime, até segunda ordem, não está na Constituição. Um impeachment no qual o "crime" imputado à presidenta é uma prática corrente de manobra fiscal feita por todos os governantes sem maiores consequências, sejam presidentes ou governadores, é golpe. Um impeachment cujo processo é comandado por um réu que toda a população entende ser um "delinquente" (como disse o procurador-geral da República) lutando para sobreviver à sua própria cassação é golpe. Um impeachment tramado por um vice-presidente que cometeu as mesmas práticas que levaram ao afastamento da presidenta não é apenas golpe, mas golpe tosco e primário.

Temer agora quer se apresentar como líder de um governo de "salvação nacional". Ele deveria começar por responder quem irá salvar o povo brasileiro dos seus "salvadores". Seu partido, uma verdadeira associação de oligarquias locais corruptas, é o maior responsável pela miséria política da Nova República, envolvendo-se até o pescoço nos piores casos de corrupção destes últimos anos, obrigando o país a paralisar todo avanço institucional que pudesse representar riscos aos seus interesses locais. Partido formado por "salvadores" do porte de Eduardo Cunha, Renan Calheiros, José Sarney, Sérgio Cabral e, principalmente, o próprio Temer. Pois nunca na história da República brasileira houve um vice-presidente que conspirasse de maneira tão aberta e cínica para derrubar o próprio presidente que o elegeu. Em qualquer país do mundo, um político que tivesse "vazado" o discurso no qual evidencia seu papel de chefe de conspiração seria execrado publicamente como uma figura acostumada à lógica das sombras. No Brasil de canais de televisão de longo histórico golpista, ele é elevado à condição de grande enxadrista do poder.

Mas não havia outra chance para tal associação de oligarcas conspiradores. Afinal, eles sabem muito bem que nunca chegariam ao poder pela via das eleições. Esta Folha publicou pesquisas no último domingo que demonstravam como, se a eleição fosse hoje, Lula, apesar de tudo o que ocorreu nos últimos meses, estaria à frente em vários cenários, Marina em outros. O eixo central da oposição golpista, a saber, o PSDB, não estaria sequer no segundo turno. Temer, que deveria também ser objeto de impeachment para 58% da população, oscilaria entre fantásticos 1% e 2%. Estes senhores, que serão encaminhados ao poder a partir de segunda-feira, têm medo de eleições pois perderam todas desde o início do século. Há de se perguntar, caso fiquem no poder, o que farão quando perceberem que poderão perder também as eleições de 2018.

Os que querem comandar o país a partir de segunda-feira aproveitam-se do fato de o país estar em uma divisão sem volta. Eles governarão jogando uma parte da população contra a outra para que todos esqueçamos que, na verdade, são eles a própria casta política corrompida contra a qual todos lutamos. Diante da crise de um governo Dilma moribundo, outras saídas, como eleições gerais, eram possíveis. Elas poderiam reconstituir um pacto mínimo de encaminhamento de antagonismos. Mas apelar ao poder instituinte não passa pela cabeça de quem sempre sonhou em alcançar o poder por usurpação.

Diante da nova realidade que se anuncia, só resta insistir que simplesmente não há mais pacto no interior da sociedade brasileira e que nada nos obriga à submissão a um governo ilegítimo. Nosso caminho é a insubmissão a este falso governo, até que ele caia. Este governo deve cair e todos os que realmente se indignam com a corrupção e o desmando devem lutar sem trégua, a partir de segunda-feira, para que o governo caia e para que o poder volte às mãos da população brasileira. Àqueles que estranham que um professor de universidade pública pregue a insubmissão, que fiquem com as palavras de Condorcet: "A verdadeira educação faz cidadãos indóceis e difíceis de governar". Chega de farsa. 

16/03/16

Sobre a delação premiada de Delcídio Amaral

Comecei a ler a delação premiada de Delcídio Amaral e não há como negar que as denúncias são gravíssimas e, se comprovadas, devem acarretar em punições exemplares a todos os envolvidos.

Ainda veio o áudio de Mercadante durante o dia.

Vamos refletir:

1- É impossível negar que uma grande parte da cúpula do PT esqueceu aquele compromisso firmado na sua origem, o de lutar pelo bem estar social e pela boa utilização da coisa pública. Não é republicano ingerir em uma investigação, isso é criminoso. Mercadante, não bastasse a incompetência na articulação política, além de ser demitido e processado penalmente, pode ser até preso que não considerarei nenhum absurdo.

2- Sim, continuo defendendo o Estado Democrático de Direito e a necessidade do contraditório judicial e de uma investigação exemplar, com todas as garantias legais, prezando pela própria natureza da delação premiada. Bom lembrar que ainda vem aí Pedro Corrêa com a promessa de entrega da bagatela de apenas 118 nomes. Se vai ter prova documental, eu não sei. Mas se tiver, bote no mundo e coloque cada um no seu devido lugar. Sem seletividade.

3- Claro que não podemos cair no conto do vigário de que a corrupção tem assinatura de um partido. Isso é balela, oportunismo barato. Precisamos combinar também que não dá pra aceitar a viabilidade das declarações de Delcídio para um lado e para o outro não (isso vale pra todo mundo, né?). Delcídio afirmou que se as "empreiteiras" falassem derrubariam os principais partidos da República. Disse que algumas tinham preferência pelo PT e outras pelo PSDB, mas que, na dúvida, doavam pra todo mundo. Ou seja, o processo político não é consequência, é CAUSA. Podemos sair maiores e melhores disso tudo, se houver o mínimo de pensamento altruísta e de fidelidade a um verdadeiro projeto de país, sem nunca desprezar o enfrentamento ideológico, claro. As pessoas, insisto, não estão acima de um ideal. Isso não muda nada do que foi feito pelo Partido dos Trabalhadores. Os avanços são históricos, no entanto, não podem ser utilizados como justificativa da dilapidação e do enriquecimento ilícito de militantes históricos que jogaram as suas trajetórias na lama, sem o mínimo de pudor e compromisso com o que deveria ser mais importante. Não importa se a ladroagem já existia com os tucanos ou com os rinocerontes, isso é ridículo. Esse tipo de falácia só torna a conduta ainda mais picareta e cínica.

4- A indicação de Lula para um Ministério nesse momento é um erro político e, de fato, padece de desvio de finalidade. Não que seja algo juridicamente fechado, o STF pode até entender o contrário. Em outros tempos, eu assinaria embaixo a nomeação, dada a sua capacidade notória de articulação política e do inegável êxito na política econômica do seu Governo. Mas não dá para admitir que isso venha a ocorrer agora. Vejo o ato como ilegal e não republicano.

5- Ou o PT e a esquerda como um todo fazem um enfrentamento decente de tudo isso, com postura de independência e com honestidade intelectual, ou podem esperar que o bloco conservador passará como um trator para ocupar um espaço deixado pela implosão da República e do próprio sistema político brasileiro. É hora de acordar mais e compartilhar menos corrente de Facebook.

Tempo difícil, mas que pode se tornar ainda mais difícil, se não houver espírito elevado e renúncia ao velho ego. A política não pode ser isso.

Guga Cardoso

13/03/16

QUE SE VAYAN TODOS ?????

Coletei no Twitter os seguintes termos a partir das 15h do sábado (12/3): protesto, manifestacao, manifestante, manifestacoes, vempraruabrasil, marchadoscorruptos, carnadogolpe2016, marchadoscoxinhas, vemprarua e "vem pra rua".

Optei por trabalhar palavras do senso comum e as hashtags oficiais dos governistas e oposicionistas, assim garantiria uma análise mais amplas dos discursos sobre os protestos.

A palavra mais mencionada nos tweets, excetuando os termos das coleta, foi CORRUPÇÃO. Uma supresa para mim. Engana-se, ao meu ver, quem se dirige aos movimentos de hoje interpretando-os como algo restrito a um campo estritamente de direita. O que vemos hoje foi uma reação à classe política - e a mega máquina de destruição do comum vigente - do país. Agora os governo de Dilma, do PSDB e do PMDB viraram os alvos da indignação popular. Não sabemos precisar ainda o tamanho disso dentro da massa de manifestantes. E não sei como os partidos de direita vão reagir a isso, porque, pela primeira vez, as ruas os rejeitaram. O efeito colateral da Lava Jato viralizou não apenas contra Lula, mas contra Aécio, Alckmin, Renan, Cunha etc.

Plotei a rede de compartilhamentos no Twitter, a partir de 236.612 retweets, coletados a partir dos termos e período já mencionados. Ao total, 100.298 perfis retuitando e sendo retuitados. Há um isolamento das redes mais governistas, que sustentam que há um golpe contra a Democracia em curso. Mas o outro pólo conservador foi engolido por uma população feita de celebridades, youtubers, nativos do Twitter e perfis que não são muito de discutir ou satirizar a política.

Há muito humor, é verdade, nesssa rede. O perfis mais periféricos deitaram e rolaram hoje, viralizando memes de situações grotescas.

Mas,pela primeira vez entendo que a rede não se polarizou com a dos governistas, mas a deixou isolada, conversando entre si. A rede amarela foi formada por muitos seguidores que compartilharam veículos de comunicação Revista Época, Globo NEws, Estadão, os organizadores dos atos (VemPRaRuaBR, o MBL, o Revoltados ONline), como ainda políticos e perfis mais conservadores, mas circundando-os há uma multidão de perfis independentes (em maior número). Esses protestos embaralharam mais as ideologias políticas. Seu efeito é colocar um problema enorme para a política: "quse se vayan todos". Mas será??? Será que agora não vai rolar o acordão, por cima, para tentar destruir o monstro das ruas?

Não passarão em branco os gritos de "ladrão de merenda" (endereçados a Alckmin), fora vagabundo (endereçados a Aécio) e fora ladrão (endereçados a Lula), como ainda o forte grito de impeachment.
Não há horizonte político seguro. Tudo em aberto. A velha direita foi expulsa da festa, a esquerda, humilhada e a nova direita dá andamento e organiza as ruas, mas não controla mais tudo.



23/02/16

Ugênio

Não entendia muito bem o que estava acontecendo; lembro da casa na Boa Vista, o vizinho ouvindo "na tonga da milonga do cabuletê". Laura me mandando arrumar os brinquedos, íamos morar na casa de vovó! Ainda não tinha arrumado e ela volta dizendo que não íamos mais. Acho que mamãe desistiu, para nosso desespero. Casa de vó é muito bom!

Alguns flashes numa casa em Caixa D'água; diziam que era mal assombrada; muito mosquito.

Depois, morando no IPSEP. Esperava Réu toda sexta-feira na janela, atucalhando o ônibus. Evandro era meu ídolo, chegava lá em casa cada vez com um carro diferente. Até uma Kombi! Aquela Kombi pra mim foi o máximo. Lembro de uma festa de aniversário, com luz negra e tudo. O tricampeonato mundial de futebol em 70; comi muita banana.

Minha primeira lembrança d'Ugênio foi num daqueles parques que tinham na Avenida Boa Viagem. Ele e mamãe conversando e eu brincando com uns meninos no parque. Um perguntou: "São seus pais?" Respondi: "Não! Aquela é minha mãe e aquele é o namorado dela". Isso em 70/71! Todos chocados.

Resolveram se casar e mamãe veio nos explicar que íamos morar no Rio de Janeiro, em Casacadura. Que nome horrível, mas se é no Rio, deve ser bom. E lá fomos nós. Na despedida, na Rodoviária, no Cais de Santa Rita, recebi muitos brinquedos e dinheiro e disse a mamãe: "tô gostando desse negócio de me mudar".

Ugênio viajava muito, era taifeiro da Marinha do Brasil. Passava meses fora de casa e quando voltava, nos enchia de presentes. Mas não era isso que nos fazia gostar dele. Ele era como nós, criança. Brincávamos o dia inteiro. De tudo. De esconde-esconde, peão, futebol, papagaio. O pouco que sei dessas brincadeiras, foi ele que me ensinou. Ah, tinha o medo que ele tinha de cobra e a gente se aproveitava disso pra dar susto nele. Era a época de Selva de Pedra e só tocava a musica tema de Regina Duarte e Francisco Cuoco no rádio. Calor dos infernos. À noite jogávamos água na parede pra ver se esfriava mais um pouco. Era uma farra.

Eu e Laura tínhamos medo de dormir no escuro. Sempre pirangueiro, Ugênio comprou uma lamparina com querosene e deixava ela ligada a noite, mas com aluz bem fraquinha. Uma vez pedi a Laura pra "aumentar" a luz e ela botou no máximo. Acordamos tossindo, com o quarto e nossos rostos todo preto de fumaça. Pena que naquela época fotografia era coisa difícil. Todo mundo pro banheiro!

Nessa época nasceu Juninha, nosso xodó. Lembro dela chegando em casa, no colo de mamãe. Ugênio estava viajando e me senti no direito de ser o homem da casa e cuidar das três. Só eu sabia disso, claro.

Mudamos de novo, dessa vez pra Belém. Primeira parada, a pensão do Cidadão do Céu. Depois fomos morar no centro, numa vila, onde a diversão era contar os ratos que passavam a noite. Uma única vizinha tinha telefone e fazia questão que todos soubessem disso, gritando quando o telefone tocava. No rádio era a época de "Comprei um quilo de farinha, pra fazer farofa, fazer farofa, fazer farofa fá!" De lá fomos para a Nova Marambaia, vila popular muito agradável, pelo menos eu achava, fiz muitas amizades, inclsuive com os filhos do vizinho, Sr. Golobovante. Ugênio nos levava pra passear no zoológico, nos parques de diversão, bons tempos. Lembro de uma foto de Juninha pixototinha, com as pernas grossinhas.

Taifeiro. Não fazia a menor ideia do que era isso e Ugênio me levou pra passar uma noite no CIABA o setor onde ele estava trabalhando. Não queria mais voltar. Comida à vontade e comida que na época, nem sabia que existia. Passei um dia de Rei, com direito a andar de ônibus da Marinha, com Ugênio dirigindo. Pense num perigo!

Laura foi embora. Réu esteve lá (de avião!) e levou pra estudar em Recife. Sofremos muito mas sabíamos que era melhor pra ela. Nesse dia, andei de taxi pra ir ao aeroporto. Um Corcel GL!

De lá fomos para Fortaleza. Mais perto de Recife, a família vinha em peso nos visitar. Era uma festa! Evandro, como sempre, causando. Veio de carro no seu Corcel GT 1970, preto e branco, uma belezura. Vovó e vovô vieram de trem, o Asa Branca. Não lembro quanto tempo ficaram, mas sofri muito quando foram embora. Lembro de estar varrendo o terraço e vi um cabelinho branco de vovó (vovô era careca, não devia ser dele) e danei-me a chorar. Ugênio e mamãe me confortando. Logo voltaremos pra Recife.

Voltamos pra Recife em 1977, acho. Fui estudar no Colégio Santos Dumont, em Boa Viagem e morava em Olinda, Jardim Brasil. Percurso grande, Réu nos convenceu a ir morar com ela, na Boa Vista e lá fui eu, morrendo de medo de papai. Diminui o contato com Ugênio. Mas sempre ia pra casa de mamãe nos fins de semana. E tome brincar.

Hoje Ugênio se foi. Um alívio, pois ele estava sofrendo muito. A ida dele me entristeceu, claro, mas ele era tão do bem, que a gente lembra mais das brincadeiras dele, as imitações do gato, a careta na hora das fotos, o aperreio quando se falava em cobra, jogando dominó sozinho, sempre fazendo a "fézinha" no bicho.

Antônio Eugênio Chaves, Ugênio, o cara que levava a vida na flauta, sempre de bem com a vida, vai em paz e obrigado por fazer parte de nossas vidas. Poucas vezes eu disse, mas eu sempre te amei.

03/02/16

A persistência do ódio na sociedade brasileira

Por Leonardo Boff*

03/02/2016

É fato inegável: há muito ódio, raiva, rancor, discriminação e repulsa na sociedade brasileira. Ela sempre existiu de alguma forma. Ou alguém acha que os milhões de escravos humilhados e feitos “peças” e as mulheres à disposição da volúpia sexual dos patrões e de seus filhos, não provocava surdo rancor e profundo ódio? É o que explica os centenas e centenas de quilombos por todas as partes no Brasil. E o ódio dos patrões que com o chibata castigavam seus escravos desobedientes no pelourinho?

O ódio pertence à zona do de mistério. A própria Bíblia não sabe explica-lo e o vê já presente desde o começo, no jardim do Éden; o primeiro crime ocorreu com Caim que por inveja, que produz ódio, matou a seu irmão Abel. O mandamento era claro: ”Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo”(Levítico 19,18; Mateus 5,43). O ódio é inimigo dos homens e de Deus e ele semeia a cizânia na terra (Mt 13,19).

Mas eis que vem Jesus e reverte a lógica do ódio: ”Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”(Mt 5, 44). Ele mesmo sucumbiu ao ódio de seus inimigos mas, aceitando livremente a morte, “venceu a morte pela morte” e assim derrubou “o muro da inimizade que dividia a humanidade”(Ef 2,14-16). Prega e vive o amor incondicional para amigos e inimigos. Inaugurou assim uma nova etapa de nossa humanização.

Mas esse ideal nunca se transformou em cultura nos países cristianizados. Estamos ainda no Velho Testamento do “olho por olho, dente por dente”.

No Brasil a raiva e o rancor histórico foi acrescido depois das eleições de 2014. Houve quem não aceitou a derrota e deslanchou um torrente de raiva e de ódio que contaminou não apenas o partido vencedor, mas toda a sociedade. Inegavelmente criou-se um consenso ideológico-político de alguns meios de comunicação que, com total desfaçatez, difundem esse sentimento.

O que leva um radialista da Rádio Atlântica FM, ligada à RBS gaúcha, conclamar a população a “cuspirem na cara do ex-Presidente Lula” senão um ódio explícito e incontido? A verdadeira perseguição judicial que Lula está sofrendo, tentando enquadrá-lo em algum crime, é movida não tanto pela fome e sede de justiça, mas pela vontade de punir, de desfigurar seu carisma e liquidar sua liderança. Grassa um maniqueísmo avassalador que amargura toda a vida social. Bem dizia Bernard Shaw: ”o ódio é a vingança dos covardes”.

Mas tentando ir um pouco mais a fundo na questão do ódio, precisamos reconhecer que ele se enraíza em nossa própria condição humana, um feixe de contradições. Somos, por natureza, e não por desvio de construção, seres contraditórios, compostos de ódios e de amores, de abraços e de rejeições. É a escolha que fizermos que irá dar rumo à nossa vida: ou a benquerença ou a aversão. Mesmo escolhendo o amor, o ódio nos acompanha como uma sombra sinistra. Se não cuidamos dele, ele invade nossa consciência e produz sua obra nefasta.

Esse realismo o encontramos na Bíblia. Mas também num pensador como Bertrand Russel que observou com acerto: ”o coração humano tal como a civilização moderna o modelou, está mais inclinado para o ódio do que pra a fraternidade”. Lógico, se ela colocou como eixo estruturador a concorrência e não a colaboração e a luta de todos contra todos em vista da acumulação privada, entende-se que predomine a tensão, a raiva, a inveja a ponto de o lema de Wall Street ser :”greed is good”: a cobiça é boa.

Mas há um ponto que precisa ser referido, observado já por F. Engels quando escreveu uma introdução ao livro de Marx sobre “A luta de classes na França”: ”Se houver alguma possibilidade de as massas trabalhadoras chegarem ao poder, a burguesia não admitirá a democracia sendo até capaz de golpeá-la”. Ora, através de Lula, o PT e seus aliados, vindo das massas trabalhadoras, chegaram ao poder. Isso é inadmissível pelos “donos do poder”(R. Faoro). Estes procuram inviabilizar o governo de cunho popular, desconsiderando o bem comum.

Aqui valem as palavras sábias do velho do Restelo de Camões: “Ó glória de mandar, o vã cobiça/Desta vaidade a quem chamamos fama./Ó fraudulento gosto, que se atiça/Com uma aura popular que honra se chama” (Cântico IV, versos 94- 95). Por detrás da busca ”da glória de mandar” e do poder, revestido de raiva e de ódio, se esconde, atualmente, a vontade daqueles que sempre o detiveram e que agora o perderam e fazem de tudo para recuperá-lo por todos os meios possíveis.

*Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu:Virtudes por um outro mundo possível(3 vol.),Vozes 2005.

03/01/16

Delicias maduras

Maturidade acalma. Traz sossego. Nos livra de melindres. Gente madura olha nos olhos. Não faz chantagem emocional nem sufoca com suas carências. Gente madura compreende, não cria caso, não age pra atingir nem faz uso de indiretas. Aliás ser maduro é ser direto, objetivo. É respeitar a opinião alheia pois quer que a sua também seja respeitada. É aprender com os erros, ao invés de paralisar com eles.

É ouvir mais do que fala e escutar com atenção, pois é assim que procede o aprendizado. Gente madura ri de si mesma pois sabe que o sorriso é a chave para muitas portas que a vida nos apresenta. Sabe que o bom humor é chique, que gente feliz brilha, sem precisar de Sol. E sabe também que alegria de verdade não se forja, se exercita com as próprias dificuldades da vida.

Gente madura sabe o que é ser feliz. Anda devagar, por que já teve pressa e percebeu que ela não é só inimiga da perfeição. Gente madura sabe que a pressa faz passar despercebido o que realmente nos ilumina o coração.

Erick Tozzo

28/12/15

2015 está acabando e ficam alguma lições.

Por Tico Santa Cruz

1- Não foi Dilma quem venceu as eleições, foi Aécio quem perdeu.

2 - Em tempos difíceis é preciso se posicionar e deixar bem claro quais são seus valores.

3 - Brasileiro aceita usar um corrupto para combater a corrupção.

4 - Não adianta mudar as peças do Tabuleiro se não mudarmos as regras.

5 - Estar do lado da maioria nem sempre é estar do lado certo.
A maioria já foi a favor do Nazismo, Fascismo, da escravidão, da separação entre brancos e negros e contra a participação das mulheres na política através do Voto.

6 - Se muitos Políticos corruptos são a favor de um Impeachment  é porque talvez esse impeachment possa livrá-los das futuras investigações e punições.

7 - Nunca se prendeu tanta gente poderosa na história desse país.

8 - Ninguém em sã consciência está satisfeito com o Governo, mas qualquer pessoa que tenha um senso crítico MÍNIMO  sabe que existe uma manipulação para fomentar uma crise maior do que a que embarcamos.

9 - Para especuladores quanto pior melhor.

10 - A República é divida por poderes: Executivo, legislativo e Judiciário - aprenda a quem cobrar o que.

O Amor é a única revolução verdadeira.

24/12/15

Star Wars: o despertar da nostalgia

Por Cora Ronai

Em 1978, quando "Guerra nas estrelas" chegou finalmente ao Brasil, nenhum de nós, espectadores, imaginava que estava assistindo ao nascimento da maior mitologia contemporânea. Na verdade, naquela época pré-internet, levamos muito tempo sem nem ao menos saber ao certo como traduzir "Star wars".  Guerras das estrelas? Guerra de estrelas? Guerras da estrela? Tudo o que sabíamos, além dos contornos da história e do elenco, é que aquela ficção científica era o maior sucesso de bilheteria de todos os tempos. Como nada faz tanto sucesso quanto o sucesso, "Guerra nas estrelas" -- como o filme foi, afinal,  oficialmente chamado, sem número e sem subtítulo -- chegou com imenso alarde, e com filas ainda maiores. Não esqueço da ansiedade com que corri para o cinema depois do trabalho, num dos primeiros dias de exibição, preocupada em não encontrar lugar; nem esqueço do assento horrível em que fiquei, na lateral de uma lateral, mas ainda assim absurdamente feliz de ter conseguido entrar.

Na madrugada da última quinta-feira, passados 37 anos, me lembrei muito daquele primeiro contato com a galáxia de George Lucas. Assim que a venda de ingressos para a pré estreia de "O despertar da força" foi liberada, ainda em outubro, corri para o computador, mas não rápido o suficiente para garantir lugar num cinema perto de casa. Depois de pesquisar uma quantidade desalentadora de salas lotadas, descobri uma única poltroninha  solitária na última fila de um cinema em Botafogo. Para mim, estava ótimo -- tão bom quanto a lateral da lateral do Cine Brasília. Eu não havia mesmo conseguido convencer ninguém a me fazer companhia no cinema aos cinco minutos de um dia de semana.

Muitas coisas mudaram entre aquela primeira estreia e essa última. A série -- ou a franquia, vá lá -- não se chama mais "Guerra nas estrelas", e sim "Star Wars", seja aqui, seja na França, na Dinamarca ou onde mais seja exibida. Conhecemos o seu universo em detalhes. Sabemos tudo, ou quase tudo, a respeito das principais personagens. Estamos familiarizados com a paisagem dos planetas e com a trilha sonora, identificamos o modelo das naves e os tipos de armas. Temos camisetas e bonés Star Wars, canecas Star Wars, posters Star Wars, bonequinhos Star Wars. Assistimos a vários trailers em nossos smartphones e computadores sem depender dos cinemas. E, claro, já saímos de casa com os lugares marcados (o que talvez explique porque, atualmente, a fila da pipoca é sempre maior do que a da bilheteria; mas isso são outros quinhentos).

Como eu esperava, a pré estreia de "Star Wars -- o despertar da força" foi um acontecimento. Havia alguns jedis, um ou dois Darth Vaders, um Luke, uma Leia, camisetas temáticas aos montes, sabres de luz. E havia, acima de tudo, a emoção de quem ama num momento de reencontro ansiosamente aguardado.

Foi lindo, de verdade.

Quando voltei a ver o filme, na segunda passada, a plateia já era outra. Ninguém gritou quando Han Solo e Chewbacca apareceram, nem houve aplausos no final. Fiquei com pena. Eu teria gritado e aplaudido novamente.

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Não sei se "O despertar da força" é mesmo, como me parece agora, o melhor "Star wars" até aqui: preciso rever os anteriores para poder afirmar isso com absoluta certeza. É possível que parte do meu entusiasmo venha da alegria de ter encontrado exatamente a história que eu queria, ao mesmo tempo diferente e igual, familiar e desconhecida. Se o primeiro filme -- aquele, de 1977 -- tinha o trunfo da originalidade, este tem o da nostalgia: com ele voltamos para casa, para o "Guerra nas estrelas" que amávamos e que, de alguma maneira, se perdeu com as confusas prequels de 1999, 2002 e 2005.

Já nas primeiras cenas fica claro que esta é a continuação pela qual estávamos esperando desde "O retorno de Jedi", de 1983. Os personagens que conhecemos então envelheceram junto conosco: nós sabemos que  30 anos se passaram não porque as folhas de um calendário foram levadas pelo vento, como nos antigos filmes de Hollywood, ou porque algum gênio do make transformou a fisionomia dos atores, mas porque, de fato, 30 anos se passaram. Eles podem ser contados um por um nos rostos de Han Solo, de Luke e da princesa Leia; eles podem ser contados nos nossos rostos. Vai ser muito difícil para qualquer filme, nesta ou em qualquer outra galáxia, superar essa extraordinária passagem de tempo.

É claro que essa viagem paralela e emocionante à juventude da minha geração não passa de simples curiosidade para quem está chegando agora; ainda assim, "O despertar da força" tem qualidades suficientes para conquistar legiões de novos fãs para a saga. O filme tem roteiro e direção fantásticos, atores carismáticos, ação, emoção e humor, cenas lindas, paisagens deslumbrantes e uma quantidade de personagens divertidas, entre elas um androide capaz de disputar com R2D2 o título de robô mais engraçadinho de todos os tempos. Last but not least, tem também um final arrebatador, que deixa tudo pronto para o próximo episódio.

Mal posso esperar!

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Feliz Natal, pessoas: que a força esteja com vocês.

(O Globo, Segundo Caderno, 24.12.2015)